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Luxo DIY
05/09/2016 11:33 (atualizado em 05/09/2016 11:36)
Customização de peças é hit em grifes de luxo

Entre as notícias mais interessantes da moda nos últimos meses está a estreia do Gucci DIY (do it yourself), serviço de customização de roupas e acessórios lançado pela grife italiana durante os desfiles masculinos de Milão, em junho passado.

A ideia é transformar o produto escolhido pelo cliente em algo ultrapessoal, com uma espécie de impressão digital intransferível. Essa é a segunda fase do projeto, que havia começado um mês antes, quando apenas a bolsa Dionysus, com seu inconfundível fecho de cabeça dupla de tigre, passou a ganhar, ao gosto do freguês, aplicações de exóticos adesivos, miçangas e cristais.

Já com planos de ampla expansão global, o departamento de atendimento especial da loja-modelo de Milão, na Via Montenapoleone, oferece ao cliente uma linha de alfaiataria unissex - jaquetas, smokings, casacos, camisas e calças -, além do tênis de couro Ace e de outros modelos de sapatos, todos customizáveis.

Apesar de várias marcas já oferecerem maneiras de personalizar seus produtos - principalmente calçados e bolsas -, a aposta da Gucci é ousada e inovadora na indústria do luxo, por levar o conceito para outro patamar. Além de sugerir certa democracia criativa, para ser exercida individualmente ou por tribos, o projeto sintetiza o pensamento do diretor artístico Alessandro Michele e seu desejo de estimular a liberdade de autoexpressão dos clientes da casa. A ideia de uma moda mais autêntica já se traduzia no estilo rebuscado e decorativo que ele impôs à grife desde que assumiu o cargo, em janeiro de 2015, com imediata aceitação global.

Agora, as roupas oferecidas no novo serviço podem ser adaptadas, com diferentes tecidos, botões e forros de foulard de seda, valorizando a habilidade da alfaiataria da Gucci. E como se sabe que Michele planeja, a partir de 2017, desfilar coleções femininas e masculinas juntas, não parece surpreendente que diversas peças sujeitas a aplicações, tachas, bordados e mil coisas mais sejam propositalmente unissex, como bombers de seda e jaquetas de denim.

O do it yourself foi popularizado e glamorizado, principalmente, pela cena rocker entre as décadas de 70 e 90 (dos pioneiros Sex Pistols ao Nirvana), sempre muito ligado à subcultura punk, que completa 40 anos. Símbolo de contestação, o DIY de então era meio pobrinho e podrinho, em grande parte caracterizado por ideologias de liberdade individual e opiniões transgressoras, em total oposição à filosofia corporativa da obsolescência.

Hoje, ironicamente, é a indústria do luxo que adota o conceito, certamente para conseguir um diálogo mais pessoal com seu consumidor, cada vez mais perplexo com a quantidade e o excesso de produtos disponíveis. O DIY de luxo, portanto, não é mais o do it yourself do passado, mas um design it yourself, como bem definiu Vanessa Friedman, crítica de moda do The New York Times. Isso porque o novo conceito dá poder ao cliente para personalizar uma peça statement, que em tese será usada por muitos anos, algo bem mais complexo que apenas cortar uma calça jeans batida e sair por aí. “Vivemos num mundo no qual somos cada vez mais incentivados a assumir nosso próprio destino”, escreveu Friedman, que acredita que a era da imposição dos designers está chegando ao fim.


Em Paris, ao visitar o Le Bon Marché (do grupo LVMH), uma das lojas de departamento mais afinadas com novidades e tendências, observei como esse movimento é evidente. No andar reservado ao street, athleisure e jeanswear, já há uma espécie de minilaboratório envidraçado, que costura e coloca patches, tachas e stickers nas peças compradas lá. 

Em Nova York, a multimarcas Opening Ceremony, da dupla Carol Lim eHumberto Leon - também responsável pelo estilo da grife francesa Kenzo-, instalou uma embroidery station, com máquinas de costura que customizam camisas e jaquetas com patches e bordados. Outra a se aventurar no DYI deluxe é a Jimmy Choo, cuja aposta para o cruise é uma coleção na qual você escolhe, além dos sapatos, toda uma série de itens decorativos, como broches e charms. 

Moda passageira? Os principais insiders da indústria apostam que não. Seria, inclusive, apenas um começo. Com opções de personalização, as marcas cultivam a fidelização num momento em que isso é mais importante que nunca. Além disso, a customização também ajuda a atingir os clientes mais jovens e imprevisíveis, que as marcas luxuosas têm dificuldade em seduzir - os famosos millennials, de crescente poder de consumo. Mais que as anteriores, essa geração quer novas experiências, e grifes por si só não significam muita coisa: ela exige individualização. E customiza o vocabulário descartiano, adotando como mantra “personalizo, logo existo”.




Fonte: Vogue

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